Nem sempre o sofrimento está no que aconteceu.
Muitas vezes, ele está na forma como a experiência ficou registrada no cérebro.
Segundo artigo da Harvard Health Publishing, a terapia EMDR é eficaz para ajudar o cérebro a reprocessar memórias difíceis, reduzindo a carga emocional e permitindo que o passado deixe de dominar o presente.
O trauma não é apenas uma lembrança.
É algo que continua sendo sentido — no corpo, nas emoções e nas crenças sobre si mesmo.
A boa notícia?
O cérebro tem capacidade de mudança.
Quando a experiência é reprocessada, o que antes ativava medo, vergonha ou dor pode dar lugar a uma sensação de segurança, controle e alívio.
Cura não é esquecer.
É poder lembrar… sem reviver.
A seguir tradução do artigo.
O que é a terapia EMDR e quem ela pode ajudar?
(Tradução de artigo de Julie Corliss publicado no Harvard Health Publishing – jan 2026)
Mais conhecida por ajudar pessoas a processarem eventos traumáticos, a terapia de dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR) pode beneficiar indivíduos com uma variedade de problemas de saúde mental.
A ideia de mover os olhos repetidamente de um lado para o outro durante uma sessão de psicoterapia pode parecer um pouco incomum. No entanto, a terapia EMDR é reconhecida como um método estabelecido e eficaz para a recuperação de traumas por importantes organizações de saúde globais e nacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a American Psychiatric Association e o Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos.
O EMDR foi desenvolvido no final da década de 1980 pela psicóloga Francine Shapiro, cujo primeiro estudo incluiu pessoas com memórias traumáticas persistentes relacionadas a abuso sexual na infância, agressões físicas e sexuais, abuso emocional e experiências da Guerra do Vietnã. Pesquisas posteriores confirmaram o EMDR como um tratamento eficaz para o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), uma condição potencialmente debilitante caracterizada por episódios recorrentes e assustadores nos quais a pessoa revive o evento traumático.
Indo além do trauma
O EMDR também tem mostrado resultados promissores para outras condições de saúde mental, incluindo a melhora dos sintomas em pessoas com transtornos de personalidade, de acordo com um estudo de 2025.
“Isso faz sentido, considerando que experiências traumáticas na infância estão associadas a um maior risco de transtornos de personalidade”, afirma Elizabeth Ressler-Craig, supervisora clínica do McLean Hospital, afiliado à Harvard.
Uma revisão de 2021 que analisou 90 estudos sobre o uso do EMDR para condições além do TEPT identificou benefícios em pessoas com diversos desafios, incluindo:
- Dependência (adicção)
- Ansiedade
- Depressão
- Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
- Dor
“Na minha experiência, o EMDR funciona bem como um complemento à psicoterapia, ajudando as pessoas a superarem um evento negativo importante que talvez não se qualifique como trauma, mas que ainda está interferindo em sua vida diária”, diz Ressler-Craig.
Como funciona a terapia EMDR?
Conduzidas por um profissional de saúde mental treinado e licenciado, as sessões de EMDR geralmente duram 60 a 90 minutos. Normalmente, o paciente encontra o terapeuta uma ou duas vezes por semana, totalizando seis a 12 sessões.
As sessões iniciais são semelhantes à psicoterapia tradicional — conversar sobre os problemas atuais e identificar conexões com experiências passadas.
O aspecto único do EMDR baseia-se na ideia de que memórias perturbadoras são processadas e armazenadas de forma inadequada no cérebro. Os movimentos oculares repetitivos fazem parte da fase de dessensibilização, que facilita o reprocessamento do trauma.
Ressler-Craig orienta seus pacientes a acompanhar seus dedos com os olhos, mas alguns terapeutas utilizam uma barra horizontal com luzes LED que se movem de um lado para o outro. Outras técnicas incluem:
- Sons (tons em fones de ouvido)
- Estímulos táteis (toques alternados no ombro ou joelho)
- Em teoria, essa estimulação bilateral ativa os dois hemisférios do cérebro, permitindo que pensamentos e emoções percorram os mesmos caminhos para reprocessar a memória perturbadora.Curiosamente, os movimentos oculares rápidos durante o sono — parte normal do ciclo do sono chamada sono REM — são fundamentais para o aprendizado e a memória (embora os movimentos oculares no EMDR não sejam rápidos).Do negativo ao positivo
Durante a fase de dessensibilização, a pessoa mantém na mente uma imagem da memória perturbadora, mas não precisa descrevê-la em detalhes ao terapeuta.
O terapeuta pergunta sobre uma crença negativa associada à memória e sobre as emoções presentes.
“As pessoas dizem coisas como ‘Eu mereci o que aconteceu comigo’ ou ‘Há algo de errado comigo’, e descrevem emoções como vergonha, repulsa por si mesmas, raiva e tristeza”, explica Ressler-Craig.
Em seguida, o terapeuta muda o foco da conversa, perguntando quais crenças positivas a pessoa gostaria de ter no futuro. Por exemplo, ela pode desejar acreditar que:
- Não é defeituosa
- Não houve motivo para ter sido alvo da situação
- Agora pode sentir que tem controle sobre sua vida
Durante a fase de escaneamento corporal, a pessoa observa suas reações físicas enquanto pensa na memória. Qualquer tensão residual ou sensação desagradável também pode ser trabalhada.
O EMDR atua nas conexões entre memórias, emoções e sensações corporais.
“Vejo meu papel como o de um guia de montanha — a jornada é sua, mas estou ali para orientar e apoiar”, diz Ressler-Craig.
Veja o original aqui:




